Um dia de cada vez…

Elocubrações de uma mulher em transformação

Uma mulher em construção tijolo a tijolo 16/06/2010

Arquivado em: Geral — ela2010 @ 15:44
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No início de 2008, o periódico francês Le Nouvel Observateur publicou uma foto de Simone de Beauvoir (1908-1986) que se tornou um marco em minha vida,  por colocar por terra algumas de minhas tantas projeções.

Simone de Beauvoir foi feminista, filósofa existencialista e escritora francesa.

A foto de Simone nua arrumando seu cabelo foi tirada por Art Shay nos EUA dos anos 1950.

Embora a comoção em torno da foto tenha sido causada pelo fato de ter sido retocada no PhotoShop para publicação, com a discussão em torno de manter ou não a celulite de Simone, chegou ao meu conhecimento que ela mantinha relacionamento com dois homens ao mesmo tempo: quando na França com o filósofo Jean-Paulo Sartre; e quando nos EUA, com o escritor Nelson Algren.

Mas não apenas isso, a foto foi tirada por Art Shay, quando este, amigo do escritor estadunidense, levou-a para tomar banho em um apartamento emprestado (pois o alugado por seu amante não tinha nem banheiro).

Ela tomou banho com a porta aberta, estava ciente da foto de Shay e, segundo este, estavam envolvidos em um jogo de sedução.

Isso me atingiu com a intensidade de uma granada incendiária – e que bom que isso aconteceu, pois me obrigou a reconstruir minha imagem do ser feminista.

Numa de suas obras mais conhecidas, intitulada “O Segundo Sexo”, Simone realiza uma profunda análise sobre o papel das mulheres na sociedade e procura demonstrar que “ninguém nasce mulher, mas sim torna-se mulher”.

Desnecessário dizer o quanto o seu nome reverberava em mim como um exemplo de feminismo.

Havia passado despercebido por mim, contudo, que eu havia construído uma imagem de feminismo, baseada em minhas tantas projeções.

De alguma maneira, havia introjetado em mim que verdadeiras feministas se manteriam afastadas dos homens, pois estes são dominadores e intrusivos…

De certa maneira, sentia-me até mesmo um pouco culpada, porque queria e gostava de beijá-los e tê-los ao meu lado.

Nesse contexto, toda a comoção em torno da foto teve um efeito até mesmo redentor sobre mim – de um lado, não me sentiria mais culpada, por ser feminista, mas querer homens ao meu lado; de outro, teria de aprender o que era ser feminista para mim.

Acredito realmente que aprendemos tudo nessa vida.

Aprendemos a andar.

Aprendemos a falar.

Aprendemos a sair com os amigos.

Aprendemos a flertar.

Aprendemos a manter relacionamentos.

Da mesma forma que podemos aprender algo, também é possível esquecer.

E tudo isso é feito de acordo com os modelos que conhecemos e decidimos seguir – afinal, não nascemos, mas nos tornamos aquilo que queremos ser.

Ontem à noite, depois do fim do jogo, decidimos mudar de boteco.

Quando estávamos para sair, minhas amigas, uma em especial, começou a falar que havia um certo indivíduo que não paráva de olhar para mim e tentava chamar a atenção.

A história foi meio longa e até engraçada, pois, antes de mais nada, descartei a hipótese de que eu era o objeto da atenção e, depois, porque simplesmente não conseguia localizá-lo.

Não é o caso de contar como a história se desenrolou, o importante foi ter percebido que, absolutamente desatenta, esqueci-me também de como se flerta.

É lógico que existe um sério problema de auto-estima na raiz desse comportamento, mas é possível aprender a me relacionar novamente – se é que algum dia soube como o fazer.

Engraçado como as coisas acontecem em nossa vida.

Há alguns meses, quando fazia terapia, discuti com minha psicóloga os modelos femininos em minha vida.

Estava muito claro que eu havia deixado para trás modelos que me perseguiam, mas os quais eu rejeitava, por me fazerem mal.

Desde então, olho com mais atenção as mulheres ao meu redor, procurando identificar o que quero eu mesma ser ou ter como característica.

Nessa linha, no domingo à noite, aluguei o filme “Coco antes de Channel”, com a Audrey Tautou (mesma atriz de “O Fabuloso Destino de Amélie Poulain” e “O Código Da Vinci”).

Abaixo incluo um vídeo com comentários sobre o filme, o qual lhes recomendo fortemente, mas o que mais me impressionou foi o modo como a Channel se construiu aos poucos.

E isso me deixou feliz, ainda que sua história tenha sido triste.

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2 Responses to “Uma mulher em construção tijolo a tijolo”

  1. Deveras Diz:

    Gostei como construi o texto, inserindo uma introdução sobre Beauvoir (quem eu estava pesquisando) e depois passando para outros assuntos (como a construção do ser).

    Continue assim, sempre em frente.

    ficanapaz


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