
O que lhe passa pela cabeça ao ouvir falar sobre masoquismo? Muito provavelmente a expressão do masoquismo sexual, referente à busca de certas pessoas pelo prazer associado à dor resultante do sofrimento infligido física ou moralmente em situações de inferioridade perante o parceiro ou a parceira sexual.
Como indicam Carvalho e Peres (1980), até a fase final de seus trabalhos, Freud considerou tanto o masoquismo quanto o sadismo (o prazer por infligir o sofrimento ao outro) mistérios para a teoria da libido. Desde o artigo “Problema econômico do masoquismo” (1924), contudo, Freud examina a questão em torno dos conceitos de superego, sentimento de culpa e necessidade de punição.
De fato, já em “Batem em uma criança” (1919 ), Freud associava o masoquismo na idade adulta com experiências de humilhação e violência na infância, estágio no qual a criança associa o amor paterno (de forma geral) à violência: seria então, como observou Contardo Calligaris, uma forma de buscar uma prova de amor na experiência vivida.
O interessante da análise do masoquismo é como ele pode ser considerado “uma reversão do sadismo em direção à própria pessoa”, em outras palavras, existe um eu que demanda castigo (ainda que isso ocorra de forma inconsciente), o qual é sublimado em sentimento de culpa.
E aí, a análise do masoquismo se torna mais interessante, pois será possível notar sua manifestação em formas muito mais sutis do que a do sexual – ainda que com uma mesma origem.
Nesse sentido, o tipo de caráter masoquista reflete a pessoa que, em geral, trabalha muito, dá a outra face e obedece as leis e costumes, mas nisso sofrendo, lamentando-se e queixando-se. Embora permaneça exteriormente submissa, passando um aspecto de “coitado”, em seu interior, é mais rebelde, e nunca aceitará realmente a situação. Assim, em seu íntimo, intercalam-se sensações de superioridade (por todo o sofrimento que aguenta) e inferioridade (pela sensação de abuso sofrido).
A pessoa com esse tipo de caráter bloqueia sentimentos fortes de rancor, negatividade, hostilidade, superioridade e medo, que possam, eventualmente, acabar numa explosão de fúria, pois, na infância, o masoquista foi condicionada a acreditar que seria amado apenas se obediente. Por esta razão, sente como se tivesse que controlar e suprimir suas necessidades e características, para suprir as “expectativas alheias”.
Mas, justamente por não aceitar totalmente a situação de inferioridade, o masoquista tende a ser bastante provocativo (no sentido de alfinetar o próximo e, muitas vezes, provocar ataques agressivos) – o que faz de forma sutil e polida. Aliado a esta característica, está o fato de ser, em geral, pessoa prestativa, disfarçando, assim, sua tendência sádica.
Nesse ínterim, a pessoa pode se consumir pelo sentimento de culpa: presume que cometeu algum tipo de crime, ainda que a natureza deste seja deixada indefinida, e este crime deve ser expiado (em geral, de forma dolorosa).
Muitas vezes, esta culpa é somatizada, e a pessoa adoece – como a cura significaria a expiação, ela tende a rejeitar a terapia e, desta forma, continua a se punir pelo que aconteceu.
Seja como for, o modo de a pessoa lidar com a culpa é algo relevante para se conhecer um masoquista.
O meu nó górdio.
[...] O que merece a menina má? [...]
Ótimo texto.Esse tipo de pessoas alfineta os outros com requinte para levar o troco e se fazer de coitado, será que criação cristã não seria a causa desse comportamento?