
É estranha a sensação de não ter parâmetros para coisas básicas da vida. De repente, você para, olha ao seu redor e pensa consigo mesma, “como foi que vim parar aqui?”, “e agora?”. Tudo aquilo que pensou ser verdadeiro, ou grande parte disso, assim, não mais do que repente, parou de fazer sentido e nos vemos como navegadores sem velas no meio do oceano.
Isso, pelo menos, é o que, com sorte, deve ocorrer no meio do processo de crescimento e amadurecimento de um indivíduo, quando percebemos que velhos modelos não atendem nossas necessidades e que, na ausência de referências concretas, faz-se necessária a busca de novos padrões que possam nos orientar no caminho.
Nesse sentido, a analogia com a metamorfose da lagarta em borboleta parece inescapável. Que triste seria a vida da borboleta se ela, em vez de voar, insistisse em continuar presa às folhas.
Uma dessas referências que sempre perco de vista e com relação à qual insisto em retornar a velhos padrões é a alimentação.
Por um lado, perseguia-me a clara percepção de que não sabia me alimentar corretamente. Por outro, apesar do recurso a modelos como o dos Vigilantes do Peso, não conseguia manter um comportamento sustentável por um longo período – pelo menos desde os 17 anos, quando entrei em depressão. É aquela mesma velha história: quando me sinto bem, meu peso abaixa, quando estou mal, ele salta às alturas.
Toda e qualquer pessoa que tenha problemas com peso já ouviu todo tipo de conversa e sentiu na pela a percepção social disseminada de que só é “gordo” quem quer, em geral, pessoas preguiçosas e sem força de vontade para fazer exercícios e não encher a pança de comida. Pimenta nos olhos dos outros…
Também eu pensava que já tinha lido e ouvido de tudo sobre o assunto.
Qual não foi minha surpresa há uns dez dias, quando tive contato, pela primeira vez, com um livro intitulado “A coruja era a filha do padeiro”, título no mínimo curioso.
O livro foi escrito por Marion Woodman, uma canadense nascida em 1928 que, aos 50 anos de idade, deixou seu trabalho como professora do ensino médio e iniciou a formação como psicóloga – uma daquelas figuras extraordinárias que têm o poder de iluminar aqueles com quem têm contato, mediata ou imediatamente. Atualmente, minha psicológa me informou, Woodman é uma das mais conhecidas analistas junguianas. Li por aí também que Woodman é uma exponente de linha específica do feminismo.
O “A coruja era filha do padeiro: obesidade, anorexia nervosa e o feminino reprimido” é a tese de conclusão de Woodman no Instituto Jung em Zurique, Suíça. Nela, a partir da análise do discurso de mulheres com distúrbios alimentares (principalmente, anorexia, bulimina e obesidade), começa a desenvolver a tese de que esse tipo de transtorno é a manifestação da feminilidade reprimida da mulher moderna. Nesse sentido, o trabalho pode ser considerado inovador ao estender o conceito de manifestação do inconsciente não apenas pelos sonhos, mas pelo próprio corpo.
Por se tratar de uma tese, o trabalho inclui a parte metodológica, com a descrição das afirmações classificadas em cada categoria. É incrível como várias dessas frases refletem em boa medida o modo como me sinto, ainda que não consiga me ver totalmente refletida em nenhum daqueles modelos. Isso torna a leitura um pouco árida, o que é compensado pelas fartas citações literárias de obras como as de Shakespeare, da qual, aliás, retira o próprio título do livro, o que não surpreende visto que Woodman era professora de inglês.
O livro é composto por cinco capítulos. No primeiro, apresenta a discussão metodológica, os fundamentos da pesquisa realizada a partir do experimento de associação de Jung. No segundo capítulo, insere-se uma discussão das bases fisiológicas a qual, se fosse ler o livro novamente, pularia, porque muita água já rolou por baixo da ponte desde que o trabalho foi redigido. No terceiro capítulo, são discutidos os três estudos de caso, um para cada tipo principal de distúrbio. No capítulo quatro, Woodman apresenta as três principais causas que associa com os distúrbios: o pai, a mãe e a relação entre sexualidade, comida e religião. No último capítulo, por fim, indica um possível caminho para o encontro com o feminino interior.
O segundo livro de Woodman, que acabei de ler ontem, chamado “O vício da perfeição: compreendendo a relação entre distúrbios alimentares e desenvolvimento psíquico” é uma leitura bem mais fluida, ainda que também seja rica em citações e exemplos retirados tanto de sua prática quanto de trabalhos prévios. O livro é composto por sete capítulos, ao longo dos quais Woodman desenvolve a tese dos distúrbios alimentares como consequência da repressão profunda do feminino pela sociedade patriarcal, de cujos elos a mulher precisa se livrar para poder viver plenamente.
Além dessa tese de obesidade como reflexo do inconsciente, uma das constatações que mais me marcou na leitura desses dois livros é que o processo de apossamento desse novo feminino não é tão fluído e direto, como imaginava. Ao contrário, este processo pode ser minado pela “criança demoníaca” interior. Isso, no entanto, não será enfrentado pelo mesmo tipo de comportamento antigo que é o reflexo do complexo anterior, mas pela abertura ao feminino que se encarregará de nos conduzir pelo caminho.
Fiquei atônita ao ver as associações traçadas pela autora refletirem tão diretamente características que julgava positivistas do meu comportamento. Para ser bem sincera, como perfeccionista que sou, a perspectiva de me abrir a algo que não sei como exatamente vai acontecer nem quando foi um pouco assustadora. Ao mesmo tempo, contudo, seria louca de insistir num comportamento que, obviamente, não me tem feito bem. Além disso, alguns dos passos indicados já dei, por que não relaxar e seguir com a corrente? De repente, a floresta não me pareceu tão assustadora.
Clique sobre a capa do livro para ir para a página respectiva de cada livro.



Elaini, td bem? Li e gostei do post, em especial da ultima consideracao que fez: “Além disso, alguns dos passos indicados já dei, por que não relaxar e seguir com a corrente? De repente, a floresta não me pareceu tão assustadora.”
Permita-me algumas reflexoes a respeito: “A ‘floresta’, que tao bem descreve aqui, da feminilidade e sexualidade, na minha modesta opiniao, apesar de incerta, desconhecida e destituida de formulas e certezas … nao e tao assustadora assim, ao menos depois de se permitir desbrava-la, ao contrario, traz um maior equilibrio interior, serenidade e aconchego para as nossas vidas …”
No que se refere a questao fisiologica, voce ja verificou como anda a sua tireoide?
Bjos,
P.S.: Estou naquela fase ’6 meses pre-deposito da tese’, vc pode imaginar! rs
Luciana
Ai, mulher, obrigada pelo comentário e toda a sorte do mundo para vc, eu não aguentei, pifei!! Então, cuide-se! bjs
Ooiii… Bom dia!!!.. Muito boa a indicação… comecei a ler… aquele abraço e um tudibão!
E aí, terminou? O que achou? bjs
Oi, Elaini!
Sempre que lembro passo por aqui pra saber como vc está. Ainda me lembro do bottom, e acho que a gente poderia marcar um café pra vc me entregar pessoalmente! hehehe
Espero que esteja tudo bem por aí e que o alívio da entrega da tese seja bastante restaurador para a sua saúde. Fiquei curiosa sobre esse livro que vc comentou no post. Tbm tenho um livro antigo preferido, que pra maioria das pessoas pode estar obsoleto, mas o qual eu me identifiquei em diversas passagens…Complexo de Cinderela o nome dele, conhece? Mande notícias. Beijos
Menina, você acredita que o bottom foi para a Alemanha comigo e voltou? hehe Estou em SP de volta, mas vamos tentar sim marcar!!! Já com relação ao livro, eu não conheço, mas vou dar uma olhada… bjs
Oooiii… sumiu??
Mulher, estou num momento em que outras coisas me tomaram, mas a sensação “eu quero escrever” está voltando… #vamosacompanhar, né?! bjs!