Um dia de cada vez…

Elocubrações de uma mulher em transformação

Síndrome de Pindorama 11/01/2011

Desde que o Shopping Frei Caneca abriu em São Paulo, fui uma frequentadora assídua dali, não apenas pela qualidade do cinema (um Unibanco Arteplex que alia filmes do circuito e de fora) como também pelas lojas de roupas e dos prestadores de serviços, tudo muito perto da Paulista, o meu ponto de referência na cidade. Certo dia, antes de o filme que queria ver começar, resolvi ir comprar uma água no mercado do subsolo, porque o bolso estava apertado. À entrada do mercado, contudo, fui barrada, porque tinha uma mochila, e mochilas não eram permitidas ali – se quisesse entrar, deveria deixá-la na entrada. Não entrei.

Aliás, nunca mais entrei naquele mercado e em nenhum outro estabelecimento em isso aconteceu – tamanha a indignação que senti e ainda sinto com tal desrespeito monumental do qual não apenas eu, mas tantos outros brasileiros são vítimas.

Impressiona-me, contudo, como as pessoas em geral continuam a frequentar os lugares em que têm de selar suas sacolas ou deixar suas mochilas ou bolsas maiores em locais apropriados. Esses lugares partem do pressuposto de que o consumidor é um ladrão – e não há nem mesmo um procedimento para provar o contrário. Não apenas esses lugares, mas todos aqueles nos quais precisamos passar por uma maratona para conseguir trocar produtos que têm defeitos – como se todos quisessemos tirar proveito da coitada, pobre da loja.

Os casos de desrespeito no Brasil não se esgotam, contudo, às situações em que se parte da presunção de que o cidadão comum é um ladrão, mas inclui também aquelas em que todo e qualquer direito do cidadão lhe é negado e qualquer serviço, obrigação que lhe é devida como o direito a um trabalho, à moradia adequada, saneamento básico, transporte, segurança pública etc etc. Não se trata mais de direitos, mas de benesses que são muito gentilmente oferecidas por quem teria o dever de desempenhar determinado papel.

Como é possível que o brasileiro e a brasileira não se levantem contra tamanha falta de respeito, tamanha violação a que é submetido dia após dia?

Minha primeira reação sempre foi relacionar esse comportamento com o conhecido (e maldito) “jeitinho brasileiro” – que pode ter diversos significados, incluindo o passar por cima de leis e regulamentos para conseguir a melhor condição para si mesmo (por que seguir uma fila, se eu sou amiga do segurança? Por que pagar uma multa, se eu sou amiga do diretor? e assim por diante). Por essa, maldição que passa de geração a geração no Brasil, a maioria da população tende a não ver problema nenhum nessas situações de respeito (que incluem a corrupção generalizada na classe política), porque, se estivessem na posição contrária, fariam o mesmo.

Um pouco distante, agora, vejo também que vivemos uma espécie de “síndrome de Estocolmo”, a qual vou me referir como “síndrome de Pindorama” (referência à designação tupi pré-cabralina dada a regiões que hoje formam o Brasil).

Lembrando: a síndrome de Estocolmo é um estado psicológico desenvolvido por vítimas de sequestro, a partir do qual estas passam a identificar com o seu sequestrador, simpatizando e empatizando com este. O nome, cunhado pelo criminólogo e psicólogo Nils Bejerot, deve-se a um famoso assalto realizado numa filial do Kreditbanken em Estocolmo que se estendeu do dia 23 ao 28 de agosto de 1973. Mesmo após o assalto, as vítimas defendiam seus captores e se mostravam reticentes diantes dos tribunais.

Tenho a impressão de que além da maldição do “jeitinho brasileiro”, vivemos uma “síndrome de Pindorama” coletiva, em que não mais se tem consciência da falta de respeito a que somos submetidos no dia a dia, das violações que sofremos em nossa dignidade e nossos direitos. Em vez disso, propagamos a idéia de um Brasil amigo, em que o brasileiro é um lutador e não desiste nunca, de que somos um povo amigável – mitos sem fim, baboseira ímpar.

Para falar a verdade, mais do que impressão, tenho certeza disso. Por exemplo, uma amiga que também está em Berlim acabou de ligar para mim, para contar como, em menos de dois minutos, conseguiu trocar o colchão inflável que comprou, do qual não tinha nota fiscal, mas que furou depois de dez dias da compra.

A cada situação de respeito que vivo aqui, paradoxalmente, minha indignação aumenta; e vejo como o filme “Ó paí ó” (<clique aqui>), mais do que falar da Bahia é um retrato fiel desse Brasil aí.

Sinceramente, penso em comprar um nariz de palhaço para, quando voltar para o Brasil, vestir-me mais adequadaente ao papel que esperam de mim…

 

 
Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.