
Ela despertou antes do que havia planejado. Aquilo era um absurdo, recusava-se a dormir tão pouco, ainda que ficar um pouco mais na cama implicasse o risco de perder o ônibus que se propusera a pegar. Para evitar efeitos colaterais nocivos deste inocente desejo de alongar o descanso por mais alguns minutos, atrasou o despertador por mais 15 minutos.
E mais uma vez.
E mais uma vez.
Se continuasse nesse ritmo, iria viajar somente no final da tarde, passaria o início da noite na estrada e perderia todo o dia. Uma pessoa com tanta coisa para fazer em tão pouco tempo não se poderia dar esse luxo. Levantou-se, mas decidiu que não iria se pressionar, se fosse para pegar o ônibus, pegaria.
Desceu para preparar o café, e o tomou com calma. Pão com queijo tostado na sanduicheira, um pedaço de bolo do aniversário da noite anterior cuja celebração ela havia perdido, um copo de café.
Quente.
Preto.
Sem açúcar.
Quando voltou para seu quarto e terminou de arrumar a mala, percebeu que faltavam apenas 20 minutos para a partida do ônibus que queria pegar. Apressar-se, estressar-se seria inútil. Decidiu pegar o seguinte.
E pensou, mais uma vez, na conversa que planejava ter com sua mãe quando chegasse em casa.
Elas precisavam conversar, faria bem para ela.
Mas elas não nunca conversavam.
Ela havia perdido o ônibus por que não queria se apressar ou por que acreditava ser possível adiar essa conversa?
Ela chegou, cumprimentou a mãe, o gato, a gata, o cachorrinho, a irmã.
Como sempre, tirou o uniforme que trajava, para vestir o local.
Era duas pessoas ao mesmo tempo.
Chegou a noite.
Contou para sua irmã que queria conversar com sua mãe. A irmã não entendia a dificuldade de comunicação que elas tinham. Jogaram alguma conversa fora.
Quando ela pensava em desistir da conversa, a mãe pediu que alguém levasse um copo d’água para seu quarto.
A janela d’oportunidade se abriu.
E ela ultrapassou aquele limiar.