
Depois de um ano, ontem fechei as portas do local que me abrigou em São Paulo nesta última fase de minha. Entreguei as chaves, mas levei comigo a certeza de que a mulher a qual partiu, definitivamente, não é a mesma que ali entrou um ano atrás.
Nasci e cresci numa cidade pequena no interior de São Paulo, onde todos se conheciam e, principalmente, todos a conhecem, quando se é a filha mais velha do dono do bar da rodoviária.
Morei na mesma cidade até deixá-la para ir para São Paulo, fazer faculdade; e, mesmo em São Paulo, não morei em tantos lugares assim.
De fato, permaneci no mesmo prédio de 1998 a 2007, quando decidi que era hora de começar a lutar pelos meus próprios interesses e resolvi arriscar, larguei o local em que trabalhava e fui viajar, a idéia era ficar um mês e meio fora, voltar para um curso e ficar mais um mês e meio fora…
Desde então, a história correu de forma bem diferente do planejado, principalmente, porque, ao olhar para trás hoje, percebo que não havia muito planejamento efetivo sobre a mesa.
Dois anos e meio e uma crise de identidade depois, via-me perdida, confusa e insegura com relação aos meus próprios caminhos.
A minha instabilidade era tanta que me vi morando em hotéis e viajando semanalmente (uma longa história que conto em outra oportunidade).
Encontrei um pensionato que me pareceu interessante, os quartos eram individuais e o local era claro e limpo.
Além da necessidade, movia-me a mesma curiosidade que me levou a partilhar um teto com uma senhora de 80 anos, simplesmente porque gostaria de entender sua realidade, e, assim, com sorte, mudei-me para o local no mesmo dia que fui visitá-lo.
Sou um ser altamente gregário, mas os últimos anos de minha vida ou morei sozinha enquanto me matava de trabalhar ou passei em hotéis, o que inviabiliza o encontro com amigos. A experiência de morar nesse tipo de habitação me era atrativa não apenas pelo preço e pela flexibilidade, mas pela possibilidade de ter com quem conversar quando voltasse para casa e de fazer amizades com pessoas de fora do meu círculo profissional.
O detalhe é que se tratava de um pensionato feminino, ali encontrei mulheres de todas as idades e filiações possíveis, de calouras em faculdades de design a corretoras de 60 anos de idade.
Como observa Clarissa Pinkola Estes, autora do livro “Mulheres que correm com os lobos” (veja nas sugestões de leitura), “[a] mulher que se reconectou à sua Mulher Selvagem é amiga e mãe de todas as que se perderam, de todas as que precisam aprender, de todas as que têm um enigma para resolver, de todas as que estão lá fora na floresta ou no deserto, vagando e procurando. Ela abre canais através das mulheres. Se elas estiverem reprimidas, ela luta para erguê-las. Se elas forem livres, ela é livre. Felizmente, por mais que seja humilhada, ela sempre volta à posição natural. Por mais que seja proibida, podada, enfraquecida, rotulada de louca, ela volta à superfície nas mulheres.”
Existe, sim, algo de mágico no encontro de mulheres, que permite a reconstrução da integralidade da mulher combalida, quando esta se abre para a experiência.
Esta vivência foi fundamental para mim, fiz amizades sólidas que espero levar comigo até o fim dos meus dias e espero ter contribuído para a vida das minhas amigas se não tanto quanto elas contribuíram para a minha pelo menos um pouquinho.
Para quem quiser ver um pouco sobre a experiência do encontro entre mulheres, indico, para começar, os seguintes filmes:
- Divinos Segredos, com Sandra Bullock e outras
- Colcha de Retalhos, com Winona Rider e outras
- Somente elas, com Whoopi Goldberg e outras