Um dia de cada vez…

Elocubrações de uma mulher em transformação

A dança de salão como terapia de dessensibilização 01/06/2010

Há três anos, por insistência de uma vizinha indignada com o fato de eu trabalhar tanto (“na minha idade”), fui assistir a uma aula de dança de salão que ela fazia e, em sua opinião, era uma ótima opção para se divertir.

Sentei-me, para acompanhar a aula, mas comecei a me sentir incomodada e até mesmo irritada a ponto de quase brigar com o professor.

Por sorte, antes que o fizesse, consegui identificar o elemento que realmente me incomodava: o professor não parar de dizer que “[o] homem é quem conduz, o homem é quem conduz, a mulher só rodopia ao seu comando!”.

Aquilo me irritava de uma maneira tão forte que quase abondei a aula e minha amiga sem nenhuma explicação.

Para mim, era um absurdo que a dominação masculina estivesse presente até mesmo nas formas mais básicas de entretenimento.

Ora, existiria alguma dança em que a mulher conduzisse? Era esta que eu queria aprender!

A aula era longa, contudo, e, enquanto observava os casais girarem em sintonia e ritmicamente à minha frente, continuei a examinar a questão.

Foi, então, que, aberta àquela experiência que se colocava à minha frente, tive um alumiamento, e fui atingida pela compreensão do que realmente estava em jogo: a capacidade de manter o controle sobre a situação.

Por razões que não vêm ao caso no momento, desenvolvi uma necessidade de estar no controle de toda situação que vivia – o que se reflete no fato de sempre acabar exercendo cargos de “liderença” e/ou “administração” nas atividades profissionais pelas quais me interesso e às quais me dedico.

Ora, se eu quisesse dançar (e isso era algo que sempre quis), teria de abrir mão do controle – algo que não sabia fazer.

Tanto era assim que alguns anos antes, em uma festa de família, minha tia me chamou a atenção, porque, ao dançar com meu tio, o conduzia…

Não tive dúvida, ao final da aula, manifestei meu interesse em ingressar na próxima turma iniciante.

E, como não poderia deixar de ser, nas primeiras aulas, deixar-me conduzir era angustiante.

Em nosso dia-a-dia, raramente vivenciamos de forma consciente o significado que cada gesto de nossos movimentos pode carregar. Não podemos esquecer, no entanto, que o corpo não apenas fala como “também tem memória, escuta e elabora, pensa, simboliza, identifica sentidos, aquilo que de alguma forma tem valor para o indivíduo” (Marcellino, s.d.).

Frequentei as aulas de dança de salão como se fosse uma terapia comportamental, e busquei aprender a não apenas viver, mas tentar apreciar a situação, uma terapia de dessensibilização sistemática, cujo objetivo é eliminar fobias.

Infelizmente, ao fim do primeiro nível, fui viajar e fiquei um tempo fora, não pude acompanhar.

Ontem voltei a fazer dança de salão.

Infelizmente, não posso dizer que foi como se nunca tivesse parado. Pelo contrário, nos primeiros momentos, o professor não parava de me alertar para o fato de não me soltar – sem falar nos muitos gritinhos que soltava quando perdia o passo.

Interessante uma observação dele: “não grite, pois isso é o sinal de que você abriu mão de tentar, deixe seu parceiro ajudá-la”.

Na vida, também é preciso aprender deixar-se conduzir – e isso, de maneira alguma, é sinal de fraqueza.

Abaixo, algumas dicas de filmes que tratam da dança de salão – que, aliás, ainda será assunto de muitos posts neste blog:

Vem dançar comigo (Strictly Ballroom, 1992) – filme australiano dirigido por Baz Luhrmann

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Dança comigo? (Shall we dansu?, 1996) – filme japonês dirigido por Masayuki Suo, foi refilmado posteriormente nos EUA com Richard Gere e Jennifer Lopez (2004)
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No ritmo da dança (Dance with me, 1998) – dirigido por Randa Haines, com Vanessa Williams, Kris Kristofferson e Chayanne
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Vem dançar (Take the lead, 2006) – dirigido por Liz Friedlander, com Antonio Banderas, conta a história real de um professor de dança que resolver dar aulas em uma escola de periferia nos EUA
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