
Embora não tenha conseguido escrever um post ontem, porque passei o dia inteiro envolvida com um evento e saí com o pessoal à noite, já havia escolhido um tema: a dificuldade que tive, tenho e não mais terei (algum dia) de me olhar no espelho.
Isso porque, na quinta-feira, enquanto buscava um texto meu sobre outro assunto, encontrei, por acaso, algo que havia escrito, em 2004, sobre esse tal de espelho:
Estou aqui para propor um desafio para cada um de vocês (…): desafio a todo e cada um (em especial, aqueles que estão acima de seu peso – tal como eu) a olharem ao espelho, sem medo, enxendo o peito e (que medo!!!) dizerem que se amam! A fazerem algo por si mesmas, dêem uma prova de amor por vocês mesmos hoje!
Falo isso, porque, nessas minhas idas e vindas, brigas com a balança, problemas com o meu rosto etc e tal, percebi que um dos maiores problemas é a gente aceitar o que é… Olhar para o espelho é a mesma coisa que uma tortura… acorda, vai escovar os dentes, às vezes, até se chega a fechar os olhos, passa pelo espelho, olha para o lado oposto, vai pôr maquiagem, não olha para baixo do pescoço… Parece uma negação constante daquilo que se é, uma rejeição permanente… o problema está no de fato de, para mudar, ser necessário aceitar o que se é… sempre que eu olho para os meus olhos no espelho (e para o resto), parece que o meu mundo muda… encarar a realidade é muito importante, podemos não a aceitar, querer mudá-la, mas a gente só pode mudar o que conhecemos, para o tiro não sair pela culatra…
Bem, é a minha experiência e o meu desafio a vocês…
À época em que escrevi este texto, mal conseguia me olhar no espelho – e, por incrível que pareça, às vezes, ainda me pego a evitar as imagens refletidas na superfície de prata por trás de um ou outro vidro.
Consciente da necessidade de me aceitar, contudo, forcei-me a encará-lo sempre que notava o desvio, a fuga.
E isso me fortaleceu, pois foi o início de um processo de apropriação de minha pessoa.
Olhar-se no espelho é um dos atos mais cotidianos de uma pessoa, pode parecer simples a princípio, mas trata-se, na realidade, de um exercício de auto-conhecimento. Como afirmou Kierkegaard, um filósofo dinamarquês: “Ninguém pode ver-se a si próprio num espelho, sem se conhecer previamente, caso contrário não é ver-se, mas apenas ver alguém”.
E, por isso mesmo, requer coragem.
Coragem para questionar a imagem que criamos de nós mesmos, nosso eu idealizado e sair da automaticidade que nos anestesia.
Coragem para ousar enxergar o que realmente somos (se não se tratar de um espelho de parque de diversões, que fique claro!).
