Se existe algo estável em minha vida, certamente, é a série “Diálogos Insólitos”, cujos capítulos são transmitidos ocasionalmente pelos mais diversos canais e meios. Ontem, por exemplo, ouvi a seguite pérola: “disseram-me que precisava ser mais feminina, fui fazer um curso, e a professora me ensinou a andar, a sentar e a comer”.No caso em questão, não se tratava de um comentário meu nem sobre minha pessoa, mas, na realidade, este bordão tem sido uma constante em minha vida. Tantas foram as vezes que o ouvi, que já perdi as contas.
E, creiam-me, não consigo lembrar nem uma única vez em que houvesse um resquício de perspectiva emancipatória nisso. Em geral, as recomendações nos são dirigidas para aprender a fazer o “homem” (isso mesmo, entre aspas) se sentir mais à vontade, menos ameaçado etc. Enfim, fazê-lo mais “homem”, como se a biologia de seu ser determinasse o seu papel social e as expectativas que criou em torno de nós, mulheres.
Eu até ouço tudo o que me dizem; levar para a prática, contudo, é toda uma outra história, pois, na maior parte das vezes, sinto-me como se tivesse sido redigida para mim aquela frase da Clarice Lispector: “Você já viu como um touro castrado se transforma num boi?”
Não sou especialista em estudos de gênero, mas sei que, desde a publicação d’”O Segundo Sexo” na década de 1940, até os atuais estudos queer, aqueles são marcados, cada um com sua especificidade, pela tese de construção social de nossas identidades (o feminino, o masculino etc.).
Se uma mulher não nasce mulher, mas torna-se mulher, porque deveríamos todas ser avaliadas a partir de um referencial que tem como base a satisfação alheia ou, pior, muitas vezes, vai contra a nossa própria essência?
Parece-me irretocável a observação, novamente, da maravilhosa Clarice Lispector: “Não pense que a pessoa tem tanta força assim a ponto de levar qualquer espécie de vida e continuar a mesma. Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso — nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro“.
Defeito, nesse caso, que fique claro, para o outro.
Tenho muito claro para mim que meu maior compromisso é comigo mesma, pois me acompanharei até o último suspiro de minha vida. As minhas características foram as responsáveis por eu ter chegado aonde cheguei, por ter sobrevivido e me fortalecido. Se elas não são toleráveis para aquele que se propõe a estar ao meu lado, como diriam os francófonos, desolée.
Uma pessoa forte e segura requer outra igualmente forte e segura. De outra maneira, por que tê-lo ao meu lado?
Vox populi, vox dei, nesse caso é verdade, antes só, do que mal acompanhada.