A modernidade ocidental é resultado de um longo processo de racionalização, desencantamento e busca de rigor científico (muito resumidamente, é lógico), que tem efeitos sobre todas as esferas da vida.
Uma das áreas que mais me chama a atenção, nesse sentido, é a medicina e, nesta linha, as diferenças entre as abordagens de tratamento da medicina ocidental e da oriental.
Enquanto a primeira separa os problemas físicos dos mentais, isolando os distúrbios emocionais ou nutricionais das físicas, a última busca interpretar as enfermidades de uma maneira mais global, identificando as causas internas em razão de desequilíbrios emocionais ou nutricionais.
E por que menciono esta diferença? Porque tenho identificado esta mesma tendência de isolamento de causas anteriores nos livros que leio sobre “administração de tempo” e tomada de decisão.
Um amigo que acompanha minhas mensagens me recomendou o livro “Getting Things Done: A arte de fazer acontecer” de David Allen (ed. Campus), como a referência da década em matéria de administração de tempo. De fato, achei o método bastante interessante; acredito ainda que pode ser otimizado se aplicado em conjunto, por exemplo, com as propostas de outro livro sobre o qual comentei anteriormente: “Aumente seu Poder de Ação e Decisão: Maneiras de ser assertivo e eficiente” de Darren Bridger e David Lewis (Publifolha).
Como ainda não apliquei o método para meus fins, deixarei comentários específicos sobre o método para um próximo post e abordarei hoje uma característica comum destes livros que me chamou a atenção: oferecer técnicas e modelos, como se fossem resolver os problemas de toda e qualquer pessoa.
Por minha própria experiência, não acredito que isso seja possível, pois a queda de produtividade pode ter diferentes causas, que, por sua vez, implicarão abordagens diversas.
A primeira causa pode sera “preguiça” pura e simples. Neste caso, a pessoa tem as condições de fazer o que precisa, mas simplesmente não o faz.
A segunda possibilidade é que a pessoa passe, no momento, por uma situação de estresse resultante de ansiedade, o que ocorre em três estágios: a reação de alarme, a adaptação e o esgotamento.
Diante de um elemento estressor, o organismo ativará o sistema neuroendócrino para entrar em prontidão e se defender: as glândulas supra-renais são prontamente ativadas e produzem o cortisol, a adrenalina e a noradrenalina (com isso, os batimentos cardíacos aceleram, há dilatação das pupilas, a sudorese aumenta e inicia-se uma hiperglicemia), a digestão é paralizada, o baço se contrai para expulsar mais glóbulos vermelhos para aumentar o fornecimento de oxigênio aos tecidos e interrompe-se a atividade imunológica (imunossupressão).
Ora a ansiedade é o sentimento de apreensão diante de perigo real ou imaginário – ou seja, independentemente da concretude do elemento estressor, a reação do corpo será a mesma.
No entanto, se o perigo é real, ocorrerá ou não (como um assalto), a situação será, portanto, transitória, as três fases passarão, e o corpo voltará ao estado de relaxamento. Por outro lado, se o perigo é imaginário (como o excesso da carga de trabalho diante de tempo escasso ou a pressão do chefe ou do financiador), não existe um encerramento formal da situação de perigo, e, consequentemente, o corpo manter-se-á num estado permanente de alerta que, se não tratado, conduzirá ao esgotamento.
Para estas pessoas, aprender a relaxar é fundamental – e o livro do David Allen configurará auxílio precioso neste sentido.

Por outro lado, a terceira causa é mais complexa: trata-se da auto-sabotagem. Como já mencionei, a auto-sabotagem conduz a um estado de enorme confusão e conflito internos, por insatisfação com a vida levada ou medo do sucesso, que, na maior parte das vezes, gera procrastinação dos compromissos.
Diferentemente dos casos anteriores, na procrastinação comportamental, como indica Knaus, a pessoa faz listas, planos e planilhas e, mesmo assim, não segue nada do que planejou, pois encontra-se num estado de paralisia que somente passará se as causas primárias forem identificadas e resolvidas – o que muitas vezes requer a ajuda de um profissional.
Parece-me, neste momento, que o recursos a estes livros que oferecerem métodos de administração de tempo será efetivo se tivermos consciência da causa que gera a queda de produtividade e, se necessário, buscar auxílio complementar.
Leu o texto com atenção? Identifique, então, a causa de sua queda de produtividade: a) preguiça; b) estresse; c) auto-sabotagem; ou d) n.d.a.