
Mas este post poderia muito bem se chamar “autoconhecimento num processo de ressocialização em progresso”.
“Processo de ressocialização” é a expressão que utilizo para me referir à minha reentrada na vida em sociedade em atividades não relacionadas ao trabalho.
No auge de meu delírio, cheguei a dormir três horas por dia e trabalhar sete dias por semana para três lugares diferentes, sem falar na pós, dando-me o luxo de ser perfeccionista.
Não me entendam mal, eu realmente gosto, eu adoro o que fazia e ainda faço. De fato, a realização pessoal para mim sempre foi articulada em termos de “trabalhar em determinado lugar” ou “com determinado tema”.
E talvez tenha sido este o problema, porque, para minha sorte, sempre atingi meus objetivos professionais – ainda que, de determinada perspectiva, meu processo de formação não esteja concluído.
A socialização consiste na assimilação de hábitos característicos do seu grupo social, com o foco estrito e excessivo em trabalho, meus hábitos estavam todos relacionados a esta área.
Uma vez, numa mesa de bar, uma amiga me perguntou: “você já percebeu como sempre traz o trabalho para cá? É como se você só ficasse à vontade falando disso”. Não, eu não havia percebido.
Minha válvula de escape sempre foi o cinema: não conseguia escrever? cinema! estava cansada? cinema! estressada? cinema! Mas não há atividade mais solitária do que o próprio cinema.
Eu comecei a aprender a sair com meus amigos novamente, mas não estava totalmente à vontade. Era como descrevia Fernando Pessoa (i.e., Álvaro de Campos):
Vi todas as coisas, e maravilhei-me de tudo,
Mas tudo ou sobrou ou foi pouco – não sei qual – e eu sofri.
Vivi todas as emoções, todos os pensamentos, todos os gestos,
E fiquei tão triste como se tivesse querido vivê-los e não conseguisse.
Amei e odiei como toda gente,
Mas para toda a gente isso foi normal e instintivo,
E para mim foi sempre a exceção, o choque, a válvula, o espasmo.
O traço gregário do ser humano é apontado desde Aristóteles, mas ontem percebi que ocasionalmente sou atinginda por uma necessidade visceral de estar sozinha.
Na verdade, aprendi a me respeitar e me conceder estes momentos: fui ao restaurante japonês de que gosto na Liberdade, assisti à peça de teatro no CCBB (aliás, peguei o único ingresso que restava, já que todos os demais da fila de espera estavam acompanhados ou entre vários amigos) e parti em seguida para duas sessões seguidas de cinema, terminei a noite comendo pizza e tomando cerveja enquanto atualizava meu perfil no Facebook.
Sábia Clarice Lispector que diz em uma das mais belas cartas que já li:
Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso — nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro.
