
“Nunca tiraste um dia de folga?” “Não.” “Por quê? É indespensável no teu trabalho?” “Não, eu não quero que eles descubram o que conseguem fazer sem mim.”
“Viver” (Ikiru, 1952, direção de Akira Kurosawa) conta a história de Kanji Watanabe, um velho chefe do departamento de obras públicas de sua cidade que, em 30 anos de serviço, nunca teve uma falta. Enterrado na burocracia do serviço público, leva uma vida apática, oca, solitária em que um dia parece não ser realmente diferente do outro – o que só se interrompe com a notícia de que tem um câncer no estômago. Notícia esta dada por um médico que emprega alguns truques a fim de não o assustar e impedir que viva o pouco de tempo que lhe resta, como se alguma tivesse.
Diante da morte iminente questiona o modo como conduzia sua vida e suas relações com as pessoas e o mundo; e muda, da água para o vinho.
Não vou contar como o filme se desenrola, mas é impressionante a atualidade do tema tratado por Kurosawa nesse filme, em todos os seus aspectos. Em especial, chamou-me a atenção a longa sequência do velório de Watanabe.
Em certo momento, os presentes começam a discutir sua mudança de comportamento, saberia ele que tinha um câncer e pouco tempo de vida?
Movia-os a necessidade de buscar uma justificativa para a alteração drástica da atitude daquele velho burocrata que, aparentemente do nada, resolve fazer a máquina funcionar e, com isso, deixa sua marca na comunidade em que vive.
No fundo, buscam uma justificativa para o seu próprio comportamento de indiferença diante dos problemas alheios e da burocracia circundante.
Apenas a ciência da morte certa e com prazo certo de chegada modificaria um homem desta forma, e todos se tranquilizam quando começam a lembrar evidências de que Watanabe sabia sim de seu estado.
Eram todos normais ali, Watanabe é que havia passado por uma experiência ímpar e, assim, modificado seu comportamento. Todos ali poderiam ter a mesma atitude e, depois de algum saquê, comprometem-se que, diante de tal exemplo, iriam passar a viver uma vida com sentido, uma decisão que dura, pelo menos, até a última gota da leve bebida.
De volta à rotina, diante do menor problema, reproduz-se a mesma velha história que todos já conheciam e contra a qual a maioria desiste de lutar.
É, mudar dá trabalho, muito trabalho. Estaremos dispostos a nos cansar com o esforço da mudança ou é mais fácil nos deixar levar pela vida?
Recomendo fortemente este filme.