Um dia de cada vez…

Elocubrações de uma mulher em transformação

Escrevinhando 16/11/2012

Filed under: Sem categoria — ela2010 @ 23:29

 

Vide São Cristóvão… 08/05/2012

Conta a história que Reprobus, Relicto, ou, mais tarde, Cristóvão, para os íntimos, foi filho de um rei pagão da região do Oriente Médio e tinha como objetivo de vida servir o homem mais poderoso do mundo.

Em sua busca, serviu a guerreiros e imperadores e percebeu que mesmo os mais fortes temiam alguém ou alguma coisa.

Um dia, enquanto descansava à beira de um rio, conheceu um velho eremita cristão que morava na região, para quem contou sua história.

Enquanto conversavam, chegou uma caravana para atravessar para o outro lado do rio, mas não havia ponte, e a travessia era perigosa, em razão da correnteza.

Reprobus foi convencido pelo eremita a auxiliar àquelas pessoas a cruzar o rio, mas que jangada que nada, levou-as todos sobre seus próprios ombros, cruzando a correnteza do rio com as forças de suas próprias pernas.

Eis que, ao levar uma criança de um lado para o outro do rio, no entanto, Reprobus se vê em uma situação absolutamente inesperada para um homem com sua força e estatura: à medida que vadeava o rio, o menino se tornava cada vez mais pesado – tão pesado como se o mundo inteiro tivesse sobre seus ombros, e ele não pudesse terminar de cruzar o rio.

Posso sentir, neste exato instante, o desespero de Reprobus: exaurido por um esforço desumano, não poderia considerar o abandono de sua caminhada uma opção, pois a criança tinha de chegar a salvo ao outro lado do rio, o que aconteceu. Quando chegou, a criança se revelou o Cristo, e Reprobus se tornou “Cristóvão”.

Para variar, como alguns dos meus santos preferidos, Cristóvão não é totalmente reconhecido pela Igreja Católica, mas quem vai negar sua simbologia (tão forte como a de São Jorge)? De minha infância, por exemplo, a festa do 25 junho, quando meus pais levavam todos os carros e caminhões para benzer e colocar uma medalha de São Cristóvão, é uma constante.

Hoje ocorreu o lançamento do livro “Mulheres na Jornada do Herói: pequeno guia de viagem” da Bia Del Pichia e da Cris Balieiro (clique aqui) – e, acreditem ou não, – e foi justamente a história de Cristóvão que me veio à mente quando comecei a ler o livro.

A jornada é dura, mas sempre chega a um fim, se estivermos engajadas com o nosso propósito, não importante quão exaustiva seja  – e, uma vez alcançado esse “fim”, voltamos sempre um pouco diferentes para o outro lado do rio.

 

 

 

Assim é a vida, comadre 29/04/2012

Filed under: Geral — ela2010 @ 19:54

Não canso de me SURPREENDER com a vida.

Surpreender, aqui, no sentido de ser surpreendida, de ser apanhada por algo inesperado.

Como se sempre fosse a primeira vez.

Algo Me incomodava.

Chamei esse algo de vazio.

Problema identificado, solução BUSCADA.

Se um vazio me incomoda, procuro logo algo com que o preencher.

É lógico, Não tem segredo, não tEm problema.

Procuro aqui, olho ali e volto acolá.

Nada.

Aperto no peito.

Estranho essa vazio que aperta.

De repente, Não Ma1s QuE De RepeNte, olho aquela mensagem perdida daquele amigo quase esquecido numa rede dessas da vida a respeito do resultado de uma partida de futebol que nem sabia que se realizaria.

A ficha cai.

ALGUNS vazios não são vazios.

Se aperta não é porque sobra espaço, mas porque o espaço é suprimido.

Alguns zumbis precisam ser definitivamente mortos e enterrados – porque respeitá-los também é necessário.

 

2011 em revista 01/01/2012

Filed under: Geral — ela2010 @ 11:51
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Os duendes do WordPress.com elaboraram um relatório das atividades do 1diadecadax em 2011. Fiquei muito feliz com o conteúdo.

Mesmo não tendo escrito com regularidade (foram cerca de 50 posts ao longo de um ano, e, se bem me lembro, a maioria com imagens), foram mais de 20.000 acessos, vindos dos cinco continentes.

O post mais lido foi o “Toda panela tem sua tampa”, mas é engraçado pensar que, não obstante, não gerou nenhum comentário. O que passa pela cabeça dos que leem este post? E os tantos outros que já publiquei? Afinal foram centenas deles…

Clique aqui para ler o relatório completo.

2011 foi um ano muito intenso em minha vida, tão intenso que tive a sensação de ter sido tomada e arremessada por um tufão, que me jogou a milhas de distância de onde estava originalmente.

Não consegui relatar o processo aqui, não tanto por ter sido arremessada, mas porque aquela necessidade premente de escrever para entender minha própria vida passou.

Passou como tantas outras coisas em minha vida, para dar lugar a outras novas.

Passei por uma fase de desenhos.

Passei por uma fase de tricô.

Passei por uma fase de bonecas (para ser sincera, esta fase plástica ainda não passou, falta, para isso, um último passo que vou tomar em janeiro).

Inúmeras vezes comecei a escrever posts para contar essa história, mas não consegui chegar ao fim de nenhum. Na verdade, quase nunca passei do primeiro parágrafo.

Este blog passou por uma resignificação, não representa mais algo que era necessário para minha própria sobrevivência, mas um canal de compartilhar algo que vivi e aprendi a duras penas.

Uma de minhas metas para 2012 será compartilhar um pouco mais aqui com vocês. Será que vou conseguir? Vocês vão me acompanhar?

Como com relação a tudo o mais, no entanto, tentarei isso, mas se não conseguir, registrarei a ocorrência e vou entender que foi o melhor que eu pude para o momento.

Que 2012 seja um ano repleto de realizações em sua vida, mas um ano de suavidade, repleto de sorrisos e muito amor!

 

Vale mais do que 1000 palavras… 04/12/2011

Filed under: Geral — ela2010 @ 13:54

O Liniers não nos deixa esquecer:

p.s.: “aburre = entedia”

 

A coruja, que era filha do padeiro, também era perfeccionista 07/06/2011

Filed under: Geral — ela2010 @ 19:55

É estranha a sensação de não ter parâmetros para coisas básicas da vida. De repente, você para, olha ao seu redor e pensa consigo mesma, “como foi que vim parar aqui?”, “e agora?”. Tudo aquilo que pensou ser verdadeiro, ou grande parte disso, assim, não mais do que repente, parou de fazer sentido e nos vemos como navegadores sem velas no meio do oceano.

Isso, pelo menos, é o que, com sorte, deve ocorrer no meio do processo de crescimento e amadurecimento de um indivíduo, quando percebemos que velhos modelos não atendem nossas necessidades e que, na ausência de referências concretas, faz-se necessária a busca de novos padrões que possam nos orientar no caminho.

Nesse sentido, a analogia com a metamorfose da lagarta em borboleta parece inescapável. Que triste seria a vida da borboleta se ela, em vez de voar, insistisse em continuar presa às folhas.

Uma dessas referências que sempre perco de vista e com relação à qual insisto em retornar a velhos padrões é a alimentação.

Por um lado, perseguia-me a clara percepção de que não sabia me alimentar corretamente. Por outro, apesar do recurso a modelos como o dos Vigilantes do Peso, não conseguia manter um comportamento sustentável por um longo período – pelo menos desde os 17 anos, quando entrei em depressão. É aquela mesma velha história: quando me sinto bem, meu peso abaixa, quando estou mal, ele salta às alturas.

Toda e qualquer pessoa que tenha problemas com peso já ouviu todo tipo de conversa e sentiu na pela a percepção social disseminada de que só é “gordo” quem quer, em geral, pessoas preguiçosas e sem força de vontade para fazer exercícios e não encher a pança de comida. Pimenta nos olhos dos outros…

Também eu pensava que já tinha lido e ouvido de tudo sobre o assunto.

Qual não foi minha surpresa há uns dez dias, quando tive contato, pela primeira vez, com um livro intitulado “A coruja era a filha do padeiro”, título no mínimo curioso.

O livro foi escrito por Marion Woodman, uma canadense nascida em 1928 que, aos 50 anos de idade, deixou seu trabalho como professora do ensino médio e iniciou a formação como psicóloga – uma daquelas figuras extraordinárias que têm o poder de iluminar aqueles com quem têm contato, mediata ou imediatamente. Atualmente, minha psicológa me informou, Woodman é uma das mais conhecidas analistas junguianas. Li por aí também que Woodman é uma exponente de linha específica do feminismo.

O “A coruja era filha do padeiro: obesidade, anorexia nervosa e o feminino reprimido” é a tese de conclusão de Woodman no Instituto Jung em Zurique, Suíça. Nela, a partir da análise do discurso de mulheres com distúrbios alimentares (principalmente, anorexia, bulimina e obesidade), começa a desenvolver a tese de que esse tipo de transtorno é a manifestação da feminilidade reprimida da mulher moderna. Nesse sentido, o trabalho pode ser considerado inovador ao estender o conceito de manifestação do inconsciente não apenas pelos sonhos, mas pelo próprio corpo.

Por se tratar de uma tese, o trabalho inclui a parte metodológica, com a descrição das afirmações classificadas em cada categoria. É incrível como várias dessas frases refletem em boa medida o modo como me sinto, ainda que não consiga me ver totalmente refletida em nenhum daqueles modelos. Isso torna a leitura um pouco árida, o que é compensado pelas fartas citações literárias de obras como as de Shakespeare, da qual, aliás, retira o próprio título do livro, o que não surpreende visto que Woodman era professora de inglês.

O livro é composto por cinco capítulos. No primeiro, apresenta a discussão metodológica, os fundamentos da pesquisa realizada a partir do experimento de associação de Jung. No segundo capítulo, insere-se uma discussão das bases fisiológicas a qual, se fosse ler o livro novamente, pularia, porque muita água já rolou por baixo da ponte desde que o trabalho foi redigido. No terceiro capítulo, são discutidos os três estudos de caso, um para cada tipo principal de distúrbio. No capítulo quatro, Woodman apresenta as três principais causas que associa com os distúrbios: o pai, a mãe e a relação entre sexualidade, comida e religião. No último capítulo, por fim, indica um possível caminho para o encontro com o feminino interior.

O segundo livro de Woodman, que acabei de ler ontem, chamado “O vício da perfeição: compreendendo a relação entre distúrbios alimentares e desenvolvimento psíquico” é uma leitura bem mais fluida, ainda que também seja rica em citações e exemplos retirados tanto de sua prática quanto de trabalhos prévios. O livro é composto por sete capítulos, ao longo dos quais Woodman desenvolve a tese dos distúrbios alimentares como consequência da repressão profunda do feminino pela sociedade patriarcal, de cujos elos a mulher precisa se livrar para poder viver plenamente.

Além dessa tese de obesidade como reflexo do inconsciente, uma das constatações que mais me marcou na leitura desses dois livros é que o processo de apossamento desse novo feminino não é tão fluído e direto, como imaginava. Ao contrário, este processo pode ser minado pela “criança demoníaca” interior. Isso, no entanto, não será enfrentado pelo mesmo tipo de comportamento antigo que é o reflexo do complexo anterior, mas pela abertura ao feminino que se encarregará de nos conduzir pelo caminho.

Fiquei atônita ao ver as associações traçadas pela autora refletirem tão diretamente características que julgava positivistas do meu comportamento. Para ser bem sincera, como perfeccionista que sou, a perspectiva de me abrir a algo que não sei como exatamente vai acontecer nem quando foi um pouco assustadora. Ao mesmo tempo, contudo, seria louca de insistir num comportamento que, obviamente, não me tem feito bem. Além disso, alguns dos passos indicados já dei, por que não relaxar e seguir com a corrente? De repente, a floresta não me pareceu tão assustadora.

Clique sobre a capa do livro para ir para a página respectiva de cada livro.

 

Não vou contar há quantos dias não escrevo 05/06/2011

Filed under: Geral — ela2010 @ 15:37


De minha parte, não estou com força para precisar em detalhes esta parte da minha história – na verdade, nem vontade tenho. Basta-me apenas saber que eu escrevia, parei por não ter condições de continuar e agora vou voltar. Com relação a você, aceita se eu apenas disser que há meses não consigo publicar um post com uma verdadeira reflexão sobre meu dia?

A princípio, precisava concentrar forças para refletir sobre o meu próprio trabalho; e, não vou mentir, consegui atingir meu objetivo, terminei de escrever a tese e a depositei. O esforço, contudo, foi tão grande, que parei no médico.

Meu corpo tremia incontrolavelmente; quando conseguia fazer meu queixo parar de bater, era o corpo em si que adquiria vontade própria e, assim, sucessivamente. Meus lábios, mãos e braços estavam gélidos e, por vezes, não pude nem mesmo os sentir. Cobri-me, com vários edredons e cobertores, mas isso não bastou para fazer cessarem os sintomas, o que, em si, não foi uma surpresa, pois não se deviam a eventual frio, mas à exaustão física à qual mais uma vez consegui conduzir meu corpo.

Seria a terceira em quanto, dois ou três anos? Não me importa, pois, afinal, qual a diferença se eu tive três exaustões físicas em dois ou se foi em três anos? A grande questão é: nos últimos anos, eu tive TRÊS exaustões físicas.

Nos últimos meses, enquanto ainda estava na Alemanha, voltei à terapia, agora com a disposição de fazer o que for necessário para concluir um tratamento de longo prazo que me permita levar uma vida equilibrada. Sem este apoio, definitivamente, não teria tido condições de chegar ao final desta estrada – que, aliás, a rigor, ainda não chegou ao fim, pois a defesa ainda terá de ocorrer em algum momento dos próximos seis meses.

Depois dessa crise, voltei a ser acompanhada por um médico acupunturista que me auxilia a alcançar um equilíbrio físico sem remédios.

O balanço de tudo que passou? Esse definitivamente é um preço que não estou mais disposta a pagar. Se é verdade a afirmação do poeta de que “no fim, tu hás de ver que as coisas mais leves são as únicas que o vento não conseguiu levar” (Mário Quintana), é melhor começar a me desvencilhar do grande peso que carrego comigo há muito mais tempo do que o devido e procurar a leveza que fará a diferença ao longo de uma vida.

Então, suponhamos que sim, você irá aceitar a afirmação de que há muitas semanas não escrevo, porque não tinha condições, e irá me acompanhar. Aliás, se o fizer, saberá que não foi apenas desta carga que estou me livrando, mas que atingi diversos limites nessas últimas semanas.



p.s.: para todos que ainda não viram “Up – nas alturas” recomendo fortemente a animação, uma das melhores produções tanto para crianças quanto para adultos dos últimos tempos. Prestem atenção em como o senhor leva sua casa consigo literalmente nas costas.